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Poesia Poemas recentes - Fio que tece o silêncio
Ao Doutor Almir Barcelos
O livro que começo a escrever já está inscrito em mim como se destino e vida fossem um só livre-árbitro de juízos finais... O fio que tece silêncio costura uma bandeira no céu... Na escuridão da noite, Uma estranha multidão escreve sua história numa página em branco, onde se lê, no alto: Anistia. É um sonho no qual se respira ar tão puro que dói e, só conhece quem teve a experiência da liberdade um dia. Essa gente corre, dança, grita, pára e, finalmente, respira, medita. Em seu andrajar sujo um mendigo mudo vaga. Pelas ruas, se arrasta. Clama, persegue, avista sombras... Quer pegar o que pensa ver... Insiste... Pé ante pé, persiste e grita, apelando: "Cadê, demo? Cadê a democracia?" Cambaleate em passos de idiossincrasia... 27/09/2010 :-: Proibida reprodução ou veiculação em quaiquer suporte sem a autorização prévia do autor.:-: Direitos protegidos :-: Poemas recentes - Vida conjugada
Poemas antigos - Ouvido Prenhe
Ela dava atenção a buxixos e boatos
E ficava toda ouvidos e excitada Quando sentia que era a que todos desejavam Quanto mais os homens baixavam a voz assim que ela entrava Mais sua orelha ficava de pé e inchava Certo dia, ela se assustou com o fato De que sua orelha crescia sem motivo a vista, Então foi consultar um otorrinolaringologista. O doutor examinou e tranquilizou a garota Depois indicou um médico discreto e de confiança Para lhe tirar do ouvido a criança. Samuel Averbug |
Poemas recentes - Canto no deserto
A Wanessa Machado Escrevo letras e contemplo: Avisto palavras Fecho os olhos Inspiro, sonho Registro uma milha no deserto Num canto dos meus olhos Um beduíno caminha e deixa rastros Mas os meus olhos não vêem o que farejo Letras desenham passos Sonhos decanto: Fecho os olhos Ouço o canto do vento Que a areia sopra Abro os olhos. O canto vai sumindo lentamente No horizonte. Expiro o deserto. Samuel Averbug Setembro 2006 - 12/08/2009 Prosa Ficção - Tião e o santo
Conto de Samuel Averbug
Em frente à casa em que eu morava quando criança, havia um cara chamado Tião. Ele tinha uns vinte anos e seu bigode era cuidadosamente alinhado. Era o filho único de dona Neném. Por algum motivo, abri o portão da casa deles e flagrei Tião sentado sozinho no chão da sala. Ele conversava com seu cachorro e lhe servia doses de pinga num daqueles copos de geléia que d. Neném usava para tomar café. Tião bebia diariamente com assiduidade mulçumana e, com o tempo, D. Neném talvez tenha desistido dele. Mas, Tião não estava nem aí. O cão, companheiro fiel de todas as horas, era uma espécie de santo para ele. Mas ele não gostava de dar "expediente", era avesso à água benta que o pinguço lhe servia e acompanhava à distância à liturgia etílica do seu dono. Numa manhã, após voltar do cortejo que fazia às vira latas do bairro nas madrugadas, ele ouviu o canto dos bem te vis e decifrou ali uma reiterada recomendação de prudência, dispensável, aliás: - Não beba! Dessa água não beba! Mais uma vez - como sempre fazia - recusou educadamente a pinga. Antes, porém, devido à insistência do Tião que naquele dia estava impossível, aproximou o focinho do copo, cheirou a bebida e saiu abanando o rabo, numa tentativa de disfarçar a repulsa. Ele jamais magoaria Tião. Este, também amigável, não se aborreceu. Sorriu até. O cãozinho correpondeu afetuosamente lambendo a perna do Tião. Inebriado, Tião mirou por alguns segundos os olhinhos redondos e negros do cão. Em seguida, se benzeu e tomou mais dois copos, duas doses: a sua e a outra, do santo. :-: Proibida veiculação em quaiquer suporte sem a autorização prévia do autor.:-: |
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