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Caderno de poesia e prosa Samuel Averbug
Desde: 15/02/2010      Publicadas: 6      Atualização: 07/11/2010

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Noturno alaranjado



Por entre nuvens
surgem raios de sol
atrás da Pedra Branca

Do que resta de céu ainda claro
finda o dia alaranjado.

Nuvens se desmancham no alto do quasi-escuro horizonte
e faz nascer mais uma noite sem luar.

Na imensidão da noite incerta a vida parece melhor agora.

Samuel Averbug


Reprodução autorizada com o devido crédito e autorização pr[évia do autor
samuelaverbug@yahoo.com.br
Poesia
Poemas recentes - Fio que tece o silêncio
Ao Doutor Almir Barcelos

O livro que começo a escrever
já está inscrito em mim
como se destino e vida fossem um só
livre-árbitro de juízos finais...

O fio que tece silêncio
costura uma bandeira no céu...

Na escuridão da noite,
Uma estranha multidão escreve sua história
numa página em branco, onde se lê, no alto:
Anistia.
É um sonho no qual se respira
ar tão puro que dói e,
só conhece quem teve a experiência da liberdade
um dia.

Essa gente corre, dança, grita, pára e,
finalmente, respira,
medita.

Em seu andrajar sujo
um mendigo mudo vaga.

Pelas ruas, se arrasta.
Clama, persegue, avista sombras...
Quer pegar o que pensa ver...
Insiste...
Pé ante pé,
persiste e grita, apelando:

"Cadê, demo?
Cadê a democracia?"

Cambaleate em passos de idiossincrasia...


27/09/2010


:-: Proibida reprodução ou veiculação em quaiquer suporte sem a autorização prévia do autor.:-: Direitos protegidos :-:
Poemas recentes - Vida conjugada
Poemas antigos - Ouvido Prenhe
Ela dava atenção a buxixos e boatos
E ficava toda ouvidos
e excitada
Quando sentia que era a que todos desejavam

Quanto mais os homens baixavam a voz
assim que ela entrava
Mais sua orelha ficava de pé
e inchava

Certo dia, ela se assustou com o fato
De que sua orelha crescia sem motivo a vista,
Então foi consultar um otorrinolaringologista.

O doutor examinou e tranquilizou a garota
Depois indicou um médico discreto
e de confiança
Para lhe tirar do ouvido a criança.

Samuel Averbug
Poemas recentes - Canto no deserto

A Wanessa Machado

Escrevo letras e contemplo:
Avisto palavras

Fecho os olhos
Inspiro, sonho
Registro uma milha no deserto

Num canto dos meus olhos
Um beduíno caminha e deixa rastros
Mas os meus olhos não vêem o que farejo

Letras desenham passos
Sonhos decanto:
Fecho os olhos

Ouço o canto do vento
Que a areia sopra
Abro os olhos.

O canto vai sumindo lentamente
No horizonte.

Expiro o deserto.


Samuel Averbug

Setembro 2006 - 12/08/2009
Prosa
Ficção - Tião e o santo
Conto de Samuel Averbug

Em frente à casa em que eu morava quando criança, havia um cara chamado Tião. Ele tinha uns vinte anos e seu bigode era cuidadosamente alinhado. Era o filho único de dona Neném.

Por algum motivo, abri o portão da casa deles e flagrei Tião sentado sozinho no chão da sala. Ele conversava com seu cachorro e lhe servia doses de pinga num daqueles copos de geléia que d. Neném usava para tomar café. Tião bebia diariamente com assiduidade mulçumana e, com o tempo, D. Neném talvez tenha desistido dele. Mas, Tião não estava nem aí.

O cão, companheiro fiel de todas as horas, era uma espécie de santo para ele. Mas ele não gostava de dar "expediente", era avesso à água benta que o pinguço lhe servia e acompanhava à distância à liturgia etílica do seu dono.

Numa manhã, após voltar do cortejo que fazia às vira latas do bairro nas madrugadas, ele ouviu o canto dos bem te vis e decifrou ali uma reiterada recomendação de prudência, dispensável, aliás:

- Não beba! Dessa água não beba!

Mais uma vez - como sempre fazia - recusou educadamente a pinga. Antes, porém, devido à insistência do Tião que naquele dia estava impossível, aproximou o focinho do copo, cheirou a bebida e saiu abanando o rabo, numa tentativa de disfarçar a repulsa.

Ele jamais magoaria Tião. Este, também amigável, não se aborreceu. Sorriu até. O cãozinho correpondeu afetuosamente lambendo a perna do Tião.

Inebriado, Tião mirou por alguns segundos os olhinhos redondos e negros do cão. Em seguida, se benzeu e tomou mais dois copos, duas doses: a sua e a outra, do santo.



:-: Proibida veiculação em quaiquer suporte sem a autorização prévia do autor.:-:

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